Um filme “ácido”
23 04 2008Alguém aí já assistiu o filme do The Doors?
Eu não. O que eu vi, ontem, foi o filme biográfico da vida do Jim Morrison, que acho que chamaram de The Doors só pra não ficar feio.
Antes de começar a história em si, o filme começa com um texto incrível, que parece que é o verdadeiro desfecho, “The End”. Narra-se a entrada em uma sala de cinema lotada, em que, em suma, os expectadores assistem a própria vida. “A sua vida daria um filme?”
Tudo começa com a família do Jim se mudando pra California, dirigindo no meio do deserto ao som de riders on the storm enquanto, de um lado da estrada, se depara com um acidente de índios em que há uma vítima fatal e uma mulher desesperada. A polícia local já estava lá, e, em suas palavras, “tudo estava sob controle”.
Muito interessante o diretor incluir essa passagem porque através dela é possível fazer várias inferências. O desrespeito do Jim pela autoridade, sua relação com a morte e a presença do shaman (curandeiro da aldeia) possivelmente vieram dali. Além disso, a mãe dele disse que era tudo um sonho, o que tornou essa cena, que de outra forma seria lugar comum, um poço de subjetividade e uma indicação de tudo o que viria a seguir.
“É tudo um sonho, Jim. Só um sonho”. Sua vida anterior foi um sonho, sua mãe, seu pai e sua irmã não existiram. Depois de deixar sua família, tudo anterior a sua vida de excessos deixou de existir.
O filme mostra o lado covarde do poeta e o lado impulsivo e sensível do homem inteligente, sem limites que não conseguia suportar as próprias emoções. “I am the Lizard King, I can do anything”.Ele tinha que transceder, tudo nele era demais. “Ride the snake”, não fuja dela. Abra as portas da conciência, além todo o conhecimento é infinito.
O filme inteiro parece toda uma viagem de doce. No meio dos shows uma tribo indígena tomava conta do palco junto com Jim. O músico afirmava que cada uma delas possuía seu próprio shaman, e que todos eram escravos do sistema. Mas com o tempo, o objetivo da banda que inicialmente era transceder os limites da mente com a sua música e com as drogas, foi se tornando cada vez mais comercial. O próprio Jim que antes queria viver tudo intensamente acabou bebendo e se drogando tanto pra fugir das suas emoções. A própria negação da família era uma forma de fugir. Ele dizia que a família havia morrido em um acidente de trânsito, o que mostra que aquele acidente que ele presenciou quando tinha 4 anos ainda queria dizer muito pra ele.
Jim tinha uma relação conturbada com Pam, a namorada de longa data, pois ambos não conseguiam levar o relacionamento aberto que tinham. Jim traia Pam constantemente, e ela revidava. Além disso o trieto Jim, Pam e LSD geralmente culminava em situações perigosas, como quando ela tentou acertar uma faca de cozinha nele porque ele tinha detonado o almoço que ela estava fazendo. “I killed your duck”, “Do you wanna see a death?”.
Quem assistir o filme e curtir um bom rock n’ roll não vai ver The Doors da mesma forma. Muitas das músicas tem uma história, geralmente “ácida”.
A resposta para a pergunta “A sua vida daria um filme?” se fosse dirigida a James Douglas Morrison deveria ser “Deu, um filme de 2:14 que é um rascunho do resumo da minha vida”.
Pena que a maioria dos grandes astros morrem cedo. De qualquer forma, antes 27 anos vivendo intensamente do que 100 na frente do computador.
“Como foi quando ela chegou, Jim?”
“No more money, no more fancy dress, This other kingdom seems by far the best.”
J.M.
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